Matéria-prima barata garante renda e gera iniciativas criativas
Iniciativas adotadas em diferentes partes do Brasil mostram que é possível aproveitar, o que antes parecia sem nenhuma utilidade, como um simples tronco de madeira – na outra ponta do iceberg - um circuito integrado de um modelo antigo de computador para fazer verdadeiras obras de arte pelas mãos de pessoas desconhecidas. Exemplos claros de que é possível aliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
Um dos casos pode ser encontrado no interior da maior floresta do mundo, a Amazônica. Resíduos coletados na natureza por homens e mulheres que vivem na região e madeiras certificadas ou oriundas de áreas de manejo florestal são a matéria-prima utilizada pelo projeto “Design Tropical da Amazônia”. Desenvolvido pela Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi), com sede na capital amazonense, a iniciativa é baseada em dois pilares: a utilização do design como ferramenta estratégica de criação e a produção de peças artesanais de alto valor agregado a partir do conhecimento tradicional dos povos da Amazônia.
Para dar vida ao projeto, técnicos da Fucapi realizam um intenso trabalho de pesquisa bibliográfica e de campo a fim de subsidiá-los no momento da criação dos itens. As ideias produzidas são repassadas aos artesãos que, após passar por treinamento específico, confeccionam as peças, dando a elas o seu toque especial. O resultado de todo esse esforço tem sido surpreendente: móveis e peças confeccionados com alto padrão de qualidade e que tem atraído a atenção dos consumidores por unir o rústico ao sofisticado.
O Design Tropical tem contribuído para o resgate e preservação das culturas cabocla e indígena, presente nos traços e detalhes das peças produzidas pelos artesãos. Outro aspecto importante é a transferência de tecnologia inovadora por meio do uso das ferramentas do design, o que tem propiciado a elevação do nível de agregação de valor aos produtos. “As peças apresentam uma nova estética amazônica, resultado do encontro da matriz cultural indígena e cabocla com instâncias contemporâneas do mercado, como funcionalidade e limpeza dos traços”, ressalta Robervando Gonçalves, gestor da Fucapi.
Além disso, o Projeto tem incentivado a chamada cultura empreendedora, baseada nos princípios da economia sustentável, que aliada à marca Amazônia, cujo apelo mercadológico é grande, tem se tornado um diferencial nos cenários nacional e internacional. “A finalidade é produzir objetos de alto valor agregado, de maneira a oferecer aos artesãos do Estado uma alternativa viável para a geração de renda com preservação ambiental”, frisa Gonçalves. Desde sua criação, em 1999, o Design Tropical já beneficiou mais de 200 artesãos e artesãs dos municípios, entre eles, Novo Airão, Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira, Itacoatiara, Maués e São Sebastião do Uatumã e a capital, Manaus.

Peças decorativas do Projeto Design Tropical. Fonte: FUCAPI
A arte do lixo eletrônico
Outra importante iniciativa acontece em São Paulo e diz respeito ao reaproveitamento do que já foi – um dia – utilizado pelo homem: computador, geladeira, televisão e tantos outros aparelhos eletroeletrônicos que, diariamente, viram sucata. Além disso, dependendo da maneira do descarte, esses equipamentos, devido ao material tóxico da sua composição, podem contaminar lençóis freáticos e causar sérias doenças à população. Entretanto, há nove anos e por acaso, uma aplicação diferenciada foi descoberta pela a artista plástica e artesã Naná Hayne. “Minha impressora e PC travavam a todo o momento e eu precisava imprimir um currículo. Lá pela enézima vez que eu desplugava tudo e replugava, na tentativa de fazê-los funcionar, tive um acesso de fúria, dei um puxão no cabo da impressora, ele se rompeu e vi pela primeira vez o que tinha dentro – ‘fios coloridos’. Então abri o PC, vi a placa-mãe e pensei ‘gente, parece Brasília’ e ali aconteceu a ‘paixão’. Fiquei um bom tempo admirando tantos componentes e com as mais variadas formas, achando tudo lindo. Aquela visão me acalmou e me lembrei do cabo rompido e então, delicadamente, com um estilete, desencapei o cabo da impressora totalmente e o plug me pareceu um aparelho dental, peguei uma tela e com massa modelei uma boca, afixei o plug e comecei a pintar, assim teve início meu trabalho com o lixo eletrônico”, conta Naná.
Assim surgiram as tecnojoias da Naná, peças de design moderno, únicas e bonitas, que atraem o público da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros (São Paulo), todos os sábados quando Naná expõe seus produtos.

Tecnojóias e peças produzidas a partir do e-lixo. Fonte: Naná Hayne.
Por um planeta melhor!
Para o economista Renato Freitas, os impactos sociais, econômicos e ambientais dessas práticas têm se mostrado promissoras por representar, dentre outras coisas, um grande impacto seja na redução no dispêndio de insumos e de energia para extração e transformação de mais materiais básicos seja na redução de custos também na destinação final, afora a geração de renda para profissionais que trabalham nesse segmento de reutilização.
Por Janaina Karla, Larissa Prado, Maria Cristina Monte, Lisângela Costa e Simone Carol Ferreira








